Ter um passaporte europeu é um objetivo de muitos brasileiros, seja pela possibilidade de morar no exterior, estudar, trabalhar ou simplesmente recuperar uma ligação familiar que atravessou gerações.
Mas descobrir se alguém realmente tem direito à cidadania pode ser mais complicado do que parece.
Não existe uma única "cidadania europeia" que possa ser solicitada diretamente à União Europeia. O interessado precisa primeiro obter a nacionalidade de um dos países que fazem parte do bloco. A partir daí, torna-se também cidadão da União Europeia.
E as regras mudam bastante de país para país.
Descendência costuma ser o primeiro caminho pesquisado
Para brasileiros com antepassados europeus, a primeira pergunta geralmente é simples: havia portugueses, italianos, espanhóis ou cidadãos de outro país europeu na família?
Dependendo do país e da árvore genealógica, essa origem pode abrir uma possibilidade de reconhecimento da nacionalidade.
Mas encontrar um sobrenome europeu não é suficiente.
É necessário comprovar documentalmente a ligação entre o requerente e o antepassado. Certidões de nascimento, casamento e outros registros civis normalmente fazem parte dessa investigação.
Portugal, por exemplo, possui diferentes hipóteses relacionadas à família. Filhos de portugueses nascidos no exterior podem solicitar a nacionalidade em determinadas condições, e existe também uma via específica para netos de portugueses.
Por isso, antes de contratar serviços ou começar a gastar dinheiro com documentos, uma das etapas mais importantes é montar a árvore genealógica e descobrir exatamente quem era o antepassado europeu e onde ele nasceu.
Morar legalmente no país também pode abrir caminho
Não ter ascendentes europeus não significa necessariamente que a cidadania seja impossível.
Outra porta importante é a naturalização depois de um período de residência.
De maneira geral, países europeus podem permitir que estrangeiros solicitem a nacionalidade depois de viver legalmente no território durante determinado período. O número de anos e os demais requisitos, entretanto, são definidos pela legislação de cada país.
Portugal é um exemplo particularmente conhecido entre brasileiros. O portal oficial da Justiça portuguesa informa que a residência legal no país por pelo menos cinco anos está entre as situações que podem permitir a aquisição da nacionalidade.
Outros requisitos podem envolver conhecimento do idioma, antecedentes criminais e comprovação da situação de residência.
Isso significa que residência permanente e cidadania não são a mesma coisa. Morar legalmente em um país pode ser uma etapa do processo, mas não transforma automaticamente o estrangeiro em cidadão.
Casamento garante cidadania automaticamente?
Não necessariamente.
Casar com um cidadão europeu pode criar uma possibilidade de aquisição da nacionalidade em alguns países, mas as condições variam.
A União Europeia reconhece que casamento pode ser uma das vias previstas pelas legislações nacionais, mas não existe uma regra automática válida para todos os países do bloco.
Em Portugal, por exemplo, casamento ou união de facto com cidadão português aparece entre os perfis previstos no guia oficial de nacionalidade.
Portanto, promessas de "cidadania automática pelo casamento" devem ser analisadas com cuidado.
Portugal é uma das opções mais procuradas por brasileiros
A ligação histórica e linguística faz de Portugal um dos primeiros países pesquisados por brasileiros interessados em uma segunda nacionalidade.
A legislação portuguesa contempla diferentes situações: nascimento, descendência, casamento, residência e outros casos específicos.
Para netos de portugueses, por exemplo, existem requisitos próprios relacionados à ascendência e à ligação com a comunidade portuguesa.
Espanha tem regras próprias
A Espanha também possui diferentes formas de aquisição da nacionalidade, incluindo opção, residência e a chamada carta de natureza.
Na naturalização por residência, os requisitos dependem da situação do interessado e da legislação aplicável. Já a carta de natureza é uma modalidade excepcional e depende de decisão do governo espanhol diante de circunstâncias consideradas excepcionais.
Por isso, regras válidas para Portugal não devem ser aplicadas automaticamente à Espanha — e o mesmo vale para os demais países europeus.
Documentos podem ser a parte mais trabalhosa
Quando o pedido depende de descendência, encontrar documentos antigos pode se transformar em uma investigação familiar.
Certidões podem estar em cartórios brasileiros, arquivos públicos, igrejas, conservatórias ou instituições estrangeiras. Dependendo do processo, documentos emitidos no Brasil também podem precisar de apostilamento e tradução.
Um erro em nomes, datas ou filiação também pode exigir correções antes que o processo avance.
É justamente por isso que reunir os documentos antes de iniciar formalmente o pedido pode evitar problemas mais adiante.
Por onde começar?
O melhor primeiro passo não é comprar passagem nem contratar imediatamente uma assessoria. É descobrir qual é a possível origem do direito.
Quem acredita ter ascendência europeia pode começar conversando com familiares e procurando certidões antigas para montar uma linha entre o antepassado europeu e as gerações seguintes.
Quem pretende conseguir a cidadania por residência precisa verificar diretamente no portal oficial do país quais vistos, períodos de residência e demais condições são exigidos.
Depois disso, vale conferir as informações em sites governamentais ou consulados.
As regras de nacionalidade podem mudar e cada história familiar apresenta particularidades. Um caminho disponível para uma pessoa pode não existir para outra, mesmo quando ambas possuem antepassados do mesmo país.
No fim, obter uma cidadania europeia costuma começar muito antes do passaporte: começa com documentos, datas e uma pergunta essencial — qual é exatamente a ligação jurídica que permite fazer o pedido?
